06/07/2026 - Copa do Mundo, Culto e Liberdade Cristã
Pr. Hélio Pinheiro - Igreja Batista do Parque São Basílio
Ontem, em nossa igreja, a Igreja Batista do Parque São Basílio, tivemos uma votação para decidirmos se deveríamos ou não realizar o culto no domingo, no jogo entre o Brasil e a Noruega, a seleção de Erling Haaland.
A partida será válida pela Copa do Mundo e começará às cinco horas da tarde, o que dificultaria — ou até mesmo impossibilitaria — que muitos irmãos chegassem às sete e quinze da noite para a participação do culto. Mais do que isso, também não poderíamos participar das reuniões de departamentos ou ministérios que temos às seis horas da tarde aos domingos e que, reuniões essas que os batistas gerais chamam de "união". Elas aconteceriam exatamente no meio da partida, entre o primeiro e o segundo tempo.
A questão que surge é inevitável:
Será que estamos errando quando deixamos de participar de um culto para assistir a um jogo?
Será que estamos em desacordo com a Bíblia pelo simples fato de colocarmos em votação algo que, para alguns, deveria ser absolutamente evidente?
Muitos diriam que nós simplesmente deveríamos saber que o culto deve ter prioridade e que o jogo deveria permanecer em segundo plano.
Mas será que é isso que a Bíblia realmente diz?
Há muitos anos eu tomei uma decisão: pautar a minha vida pela Escritura.
E aqui cabe uma breve história pessoal.
Quando eu tinha dezoito anos, era líder de adolescentes em uma igreja onde existia o costume de que os homens deveriam usar calça comprida o tempo todo, jamais usarem bermudas. Em outras palavras, não poderiam usar bermuda. Certa vez, o pastor daquela igreja onde fui criado e onde me converti me procurou e disse:
"Hélio, você precisa conversar com esses adolescentes que estão andando de bermuda para que eles passem a usar apenas calça comprida."
Com todo o respeito e temor que sempre procurei ter pelos meus irmãos, o que incluí os pastores, respondi que não faria aquilo. E não faria porque já havia decidido em meu coração ensinar apenas aquilo que a Bíblia chama de pecado, e não aquilo que tradições denominacionais ou costumes eclesiásticos resolvessem transformar em pecado. Lembro-me de que essa decisão contribuiu não apenas para que eu deixasse a liderança dos adolescentes, mas também aquela denominação. E continuo procurando agir da mesma forma até hoje.
Essa postura me trouxe coisas boas, especialmente em relação à minha consciência diante de Deus. Também me trouxe o respeito e a consideração de irmãos que entendem a importância de distinguir entre mandamentos divinos e tradições humanas.
Pecado é aquilo que foi pecado, é pecado e continuará sendo pecado. Mas essa postura também trouxe dificuldades.
Para alguns irmãos, sou quase uma pedra de tropeço, porque não abraço tradições como se fossem dogmas. Não caminho simplesmente com aquilo que todos estão fazendo, seja para mudar, seja para conservar, sem que exista um fundamento bíblico claro, objetivo e permanente.
Voltemos ao jogo. É pecado, diante da Bíblia, deixar de realizar um culto para assistir a uma partida da Copa do Mundo? Ou, por outro lado, seria legalismo manter o culto no horário habitual e abrir mão do jogo? Essa também é uma pergunta importante.
Recentemente tive contato com uma reflexão do reverendo Antônio Neto que muito me ajudou a pensar sobre essa questão, e é a partir dela que esta pastoral prossegue. Porque aquilo que a Bíblia chama de pecado, ela o faz com absoluta clareza.
A Bíblia diz que mentir é pecado. Não há dúvida sobre isso. A Bíblia diz que adulterar é pecado. Não há dúvida sobre isso. A Bíblia diz que furtar é pecado.
Não há dúvida sobre isso. A Bíblia diz que abandonar a congregação e desprezar a comunhão dos santos é algo grave. Também não há dúvida sobre isso.
Quando Deus deseja proibir algo, Ele o faz claramente. Entretanto, a Bíblia não diz em qual horário uma igreja deve se reunir. Ela não determina se o culto deve ocorrer às nove da manhã, às seis da tarde ou às sete e quinze da noite. Ela não estabelece se, diante de uma situação excepcional, uma igreja local pode ou não alterar seu horário de reunião. Onde não há clareza podemos ter liberdade. E uma coisa que não toleramos muito como cristãos é a liberdade alheia em Deus. A nossa liberdade é dogma a dos outros é heresia.
Talvez seja exatamente por isso que o apóstolo Paulo nos ajude tanto em Romanos 14: "Assim, seja qual for o seu modo de crer a respeito dessas coisas, que isso permaneça entre você e Deus. Bem-aventurado o homem que não se condena naquilo que aprova." Romanos 14.22
Paulo estava tratando de alimentos, dias e costumes sobre os quais Deus não havia estabelecido um mandamento moral absoluto. E o princípio parece se aplicar aqui também.
O horário do culto é uma questão indiferente, isto é, uma questão na qual Deus concedeu liberdade à consciência cristã e à igreja local. Assim, aqueles que decidem alterar o horário do culto devem fazê-lo por razões honestas diante de Deus: talvez para favorecer a comunhão dos irmãos, para permitir que famílias compartilhem juntas um momento cultural importante em seu país ou simplesmente para evitar que os irmãos sejam colocados diante de uma escolha desnecessária entre duas coisas legítimas.
Por outro lado, aqueles que decidem manter o horário do culto também devem fazê-lo por razões honestas diante de Deus, entendendo que desejam testemunhar a prioridade das coisas espirituais e a centralidade do culto cristão. As duas posições podem ser tomadas para a glória de Deus. Mas existe um cuidado indispensável. Os que mudam o horário não devem julgar os que mantêm: "olha lá os santarões!" E os que mantêm não devem condenar os que mudam: "pecadores sem temor ao Cristo e ao Dia do Senhor". Porque o problema começa quando passamos a condenar exatamente naquilo em que Deus resolveu conceder liberdade. Talvez seja justamente isso que Paulo esteja ensinando quando pergunta:
"Quem é você para julgar o servo alheio? Para o seu próprio senhor ele está em pé ou cai." (Romanos 14.4)
E ainda:
"Não nos julguemos mais uns aos outros; pelo contrário, tomemos a decisão de não pôr tropeço ou escândalo ao irmão." Romanos 14.13
O Reino de Deus não consiste em horários de culto ajustados ou não ajustados diante de eventos culturais. O Reino de Deus consiste em justiça, paz e alegria no Espírito Santo. Na Igreja Batista do Parque São Basílio, votamos e tomamos uma decisão como igreja local: não haverá culto! Outras igrejas tomarão decisões diferentes. (Sei de igrejas que terão culto)
E talvez a maturidade cristã consista justamente em reconhecer que nem toda divergência é uma divergência entre fidelidade e pecado. Muitas vezes, trata-se apenas de uma divergência dentro do espaço da liberdade que o próprio Deus decidiu conceder ao Seu povo. Se fosse pecado alterar excepcionalmente o horário do culto, provavelmente a Escritura afirmaria isso com clareza. Se fosse legalismo manter o horário do culto, provavelmente a Escritura também afirmaria isso com clareza. Mas ela não afirma nenhuma dessas coisas. O que ela nos ensina é que devemos honrar ao Senhor em tudo o que fazemos.
Portanto, quer assistamos ao jogo, quer estejamos reunidos no culto, quer a igreja altere o horário, quer a igreja o mantenha, a pergunta final continua sendo a mesma: Estamos fazendo isso para a glória de Deus? Se a resposta for sim, talvez seja prudente lembrarmos novamente das palavras do apóstolo:
"Assim, seja qual for o seu modo de crer a respeito dessas coisas, que isso permaneça entre você e Deus."
Talvez isso seja mais bíblico, mais humilde e mais cristão do que transformar preferências pessoais em mandamentos divinos ou tradições humanas em pecados que Deus jamais declarou serem pecados.
Pr. Hélio Pinheiro
Pastor auxiliar na Igreja Batista do Parque São Basílio